Olá, pessoal!
Estou aqui hoje para falar da apresentação intitulada "A arte do partimento: revisitando a teoria musical dos mestres napolitanos do século XVIII para o ensino na prática da música", apresentada no Congresso Internacional Freire e Vigotski: Educação Pública Emancipatória em 2021.
O trabalho é uma produção conjunta de Fernando Tavares, Gustavo Caum e Silva e Diósnio Machado Neto do LAMUS (Laboratório de Musicologia).
Este artigo faz parte da minha coleção, que inclui diversos estudos sobre contrabaixo, teoria e análise musical.
Para conferir alguns dos trabalhos e artigos que publiquei, acessem o link:
http://www.femtavares.com.br/p/midiaimpressa-fernandotavares-sempre.html
Para obter mais informações, entrem em contato pelo e-mail: femtavares@gmail.com.
Resumo da apresentação
O projeto que envolve este curso traz à tona um debate que cerca um campo de estudos dos processos de significação musical e que contempla a obra dos compositores do período Galante, ocorrido no Antigo Regime. Este processo está em andamento desde o início dos anos 1980 e se intensificou em meados dos anos 2000, após o trabalho de Robert Gjerdingen (2007) que apresentou uma nova perspectiva sobre a música do período citado. Os estudos de significação musical vislumbram a compreensão da retórica como organizadora do projeto discursivo da música, assim como a compreensão da gramática musical por meio de esquemas de harmonia e contraponto (MACHADO NETO, 2018).
Não obstante, durante todo o século XX a ideia sobre o processo criativo musical do passado clássico-romântico estava amparada sobre uma teoria forjada no século XIX. Esta estava fundada numa teoria da funcionalidade que racionalizava a harmonia a partir de estruturas formais. No entanto, desde os trabalhos que questionavam a questão expressiva dos compositores dessas épocas, o modo de compreender o processo criativo lentamente transformou-se em direção a uma ideia de significação musical guiando o uso das formas e, consequentemente, da harmonia.
Nesta senda, o desenvolvimento dos estudos sobre a pedagogia musical também avançava, revelando que o aprendizado dos grandes mestres do século XVIII e parte do XIX estava sustentado por procedimentos muito distintos do que era aplicado aos músicos no decorrer de um tempo dominado pelo ensino de harmonia do Conservatório de Paris, e tudo o que se espelhava nele. Em resumo, após o surgimento dos conservatórios de música, lentamente foi-se apagando uma prática de ensino que tinha criado a perícia de compositores como Haydn, Mozart, Beethoven, Rossini, entre muitos outros.
Esse modelo de ensino se desenvolveu nas escolas napolitanas e se expandiu para os centros de ensino de música da Europa e seus domínios coloniais, incluindo o Brasil, rapidamente a ponto de não haver mestre conceituado que não o manejasse. Conhecido como a Arte do Partimento, o ensino se fundamentava em sequências de notas, escritas na maior parte das vezes na clave de Fá e que se referiam a parte mais grave de uma composição (SANGUINETTI, 2012). Estas sequências auxiliavam o estudante na assimilação de fórmulas que associavam a linha do baixo com a melodia. Mas não apenas isso, através de pequenas linhas de baixo-soprano ensinava-se forma musical e estilo, sempre numa perspectiva da realização prática através da improvisação ao teclado. Em suma, Partimento é um baixo instrucional que auxiliava um estudante na compreensão das técnicas de composição e improvisação.
Este ensino, lentamente esquecido, hoje ressurge com forte impacto nas disciplinas de harmonia e contraponto pela sua grande capacidade de desenvolver não só a compreensão dos movimentos harmônicos (acordes, cadências, progressões, sequências), mas a própria questão formal da música galante que por muito tempo foi envolta em grandes polêmicas.
Desta forma, o estudo aqui apresentado tem como objetivo principal apresentar os processos pedagógicos de um curso de extensão oferecido à comunidade em geral, a partir de estudos desenvolvidos pelo Laboratório de Musicologia LAMUS-EACH, que se justifica pela necessidade de atualizar o músico brasileiro de processos de estudo da música galante através de uma orientação historicamente informada, ainda pouco conhecida nas nossas escolas. Além do mais, professores das disciplinas contempladas no referido curso, como o contraponto e a harmonia, podem se valer destes ensinamentos e reflexões para prover em suas disciplinas os conteúdos resgatados e mostrados neste trabalho com base nas reflexões de Peter Van Tour (2015) sobre o ensino de contraponto nos Conservatórios Napolitanos. Ademais, o conteúdo do curso de extensão demonstra a adequação da linguagem dos mestres napolitanos à métodos modernos do ensino da teoria musical.
Para os professores relacionados à prática musical, o conteúdo do curso de extensão contempla exercícios de resolução de sequências de notas que guiam o estudante na aquisição de proficiência na improvisação e harmonização. Este, por sinal, era a finalidade do ensino dos partimentos pelos mestres napolitanos e que os materiais e exercícios deste curso ajudam a resgatar. Em suma, o modelo pedagógico apresentado neste trabalho visa auxiliar professores e estudantes de música a resgatar uma tradição de transmissão do conhecimento musical que priorizava a aquisição das habilidades teóricas e técnicas da música por meio da prática musical.
Palavras-chave: Ensino de Música. Partimento. Contraponto. Análise Musical. Música Galante.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
GJERDINGEN, Robert O.. Music in the galant style. New York: Oxford University Press, Inc., 2007.
MACHADO NETO, Diósnio. Memória, realidade e projeção: 10 anos de estudos de significação musical sobre a música na américa portuguesa. In: Musicologia Transatlântica, um momento de reflexão, 10., 2018, Lisboa. Atas do Congresso Internacional. Lisboa: Cesem-Universidade Nova de Lisboa, 2018. p. 123-136.
SANGUINETTI, Giorgio. The art of partimento: History, theory, and practice. New York: Oxford University Press, Inc., 2012.
VAN TOUR, Peter. Counterpoint and partimento: Methods of teaching composition in late eighteenth-century Naples. Uppsala: Uppsala Universitet, 2015. 318 p.
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Bons estudos e até a próxima coluna!
Fernando Tavares utiliza cordas Giannini e cabos Datalink.
Fernando Tavares é pesquisador, professor e contrabaixista. Contribuiu com diversas publicações para revistas especializadas em contrabaixo e hoje é membro do LAMUS (Laboratório de Musicologia da EACH-USP Leste), do CEMUPE (Centro de Musicologia de Penedo) e do LEDEP (Laboratório de Educação e Desenvolvimento Psicológico da EACH-USP Leste).






