quinta-feira, 22 de outubro de 2026

King Crimson - Discipline

Olá, pessoal!

Estamos de volta para mais uma matéria, na qual falamos sobre um álbum ou um baixista. Neste mês, temos as linhas de contrabaixo do álbum Discipline, do King Crimson, analisadas para os leitores do site.

    Fonte da imagem: https://images.app.goo.gl/sTMTQtrxCkGezHk47

Este álbum marca o retorno do King Crimson aos estúdios após sete anos sem lançar material inédito. A relevância da banda no cenário do Rock Progressivo é marcante. O grupo lançou alguns dos grandes clássicos do gênero, como In the Court of the Crimson King, Larks' Tongues in Aspic e Red, entre 1969 e 1974. Após uma pausa nas atividades, a banda retornou com o álbum Discipline, que se tornou um clássico não apenas pela mudança na sonoridade do grupo, mas também pela criação de possibilidades sonoras que exploravam recursos até então pouco utilizados pela banda, tanto pelo emprego de instrumentos e recursos tecnológicos para a criação de novos timbres quanto pela execução das músicas com instrumentos pouco convencionais.

Outras características marcantes deste álbum são o trabalho dos guitarristas Robert Fripp e Adrian Belew, que executam linhas de guitarra em contraponto e exploram procedimentos polirrítmicos, e a atuação do baterista Bill Bruford, que apresentou inovações tecnológicas para a bateria, utilizando pads com controladores, além de sua conhecida habilidade na execução de compassos alternados.

Quanto ao que nos cabe nesta matéria, que é o trabalho do excepcional baixista Tony Levin, vale destacar que ele não apenas esteve na vanguarda de novas formas de tocar contrabaixo na música popular, como também ajudou a difundir, com este álbum, a técnica de Two-Handed Tapping e um instrumento pouco usual na época: o Chapman Stick de 12 cordas.

Análises

O álbum tem duração de aproximadamente 42 minutos e é formado por sete faixas.

Exemplo 1

Na primeira faixa, “Elephant Talk”, o groove principal da música é executado no Stick utilizando a técnica de Two Hands, e Levin emprega bastante swing nessa levada. Os sons de elefante que aparecem na música são produzidos pela guitarra de Belew.

No Exemplo 1, está transcrito o groove principal da música. Ele foi transposto para o contrabaixo de seis cordas, e o baixista constrói a frase utilizando os intervalos de F, ♭3 e 6 sobre o acorde de Am e F, 3 e 7 sobre o acorde de E7. Prestem atenção ao vibrato realizado no último tempo do compasso. 

Exemplo 2

No Exemplo 2, temos a base do segundo solo de guitarra, que ocorre por volta de 3:26. O trecho foi adaptado para o contrabaixo de cinco cordas e é construído utilizando F, 5, 6 e 7 do acorde.

A nota Fá, que aparece no quarto compasso, funciona como uma aproximação cromática.

Exemplo 3

Em “Frame by Frame”, Levin utiliza novamente o Stick. A base da voz desta música é construída em um compasso de 7/4.

O Exemplo 3 apresenta o interlúdio da música, que começa por volta de 0:37 e retorna outras duas vezes, em 2:12 e 3:49. O trecho foi transposto para o contrabaixo de cinco cordas e é construído com diversos slides, além das semicolcheias no último tempo de cada compasso, que soam quase percutidas devido à alta velocidade da frase.

Este trecho apresenta uma característica harmônica muito presente nas músicas do King Crimson: a harmonia modal. A frase está em C#m e se repete um tom e meio acima, em Em; novamente um tom e meio acima, em Gm; e, posteriormente, meio tom acima, em G#m.

Exemplo 4

Em “Matte Kudasai”, Levin utiliza um contrabaixo de quatro cordas e constrói uma levada bastante simples.

O aspecto interessante dessa linha está no acento sobre o tempo fraco, além do uso da tercina de semínima. No último tempo, é realizada uma passagem utilizando F, 2, ♯2 (blue note) e 3 do acorde. 

Exemplo 5

A faixa “Indiscipline” é mais uma gravação na qual Levin utiliza o Stick.

A frase principal, apresentada no Exemplo 5, está em compasso 4/4 e não apresenta maiores dificuldades técnicas. O grande desafio aparece no refrão da música, quando a estrutura rítmica dessa primeira frase é executada com a mão direita, utilizando F e 3 do acorde de A, enquanto a mão esquerda realiza uma linha em 5/4.

Essa linha é apresentada no Exemplo 6. Temos, portanto, uma situação bastante interessante: Levin realiza uma espécie de polirritmia consigo mesmo, combinando diferentes organizações métricas entre as duas mãos.

Vejam a linha completa no Exemplo 7 e reparem que a nota forte — Lá, na 12ª casa da corda Lá — coincide com o primeiro tempo apenas quando é tocada no primeiro compasso.

Exemplo 6

Exemplo 7

Exemplo 8

Em “Thela Hun Ginjeet”, a base para a linha vocal é construída utilizando a técnica de Slap, como apresentado no Exemplo 8.

Foram utilizadas a fundamental, a quarta e a sétima para a construção da frase. Também são empregados dois ligados cromáticos, um ascendente e outro descendente, em direção a essas notas.

No segundo tempo, aparecem duas notas abafadas: uma executada com Thumb e outra com Plucked. Por fim, no quarto tempo do último compasso, há uma aproximação cromática em direção à fundamental do acorde.

Exemplo 9

“The Sheltering Sky” é, em termos técnicos para o contrabaixo, a música mais simples do álbum. A linha é construída utilizando a fundamental de cada acorde.

Fiquem atentos, entretanto, aos contratempos utilizados pelo baixista na construção da linha. O trecho foi transposto para o contrabaixo de quatro cordas, mas, para quem possui um contrabaixo de cinco cordas, vale experimentar tocar o Dó sustenido uma oitava abaixo.

Exemplo 10

A última faixa do álbum, “Discipline”, é a música mais difícil de executar no contrabaixo.

No Exemplo 10, temos a linha de contrabaixo na primeira pauta e a linha principal de guitarra, transposta para o contrabaixo, na segunda pauta. Dessa maneira, podemos compreender melhor a construção da linha.

Enquanto a base da música é construída em um compasso de 5/4, a linha de Levin utiliza a técnica de Two Hands em um compasso de 9/16. Observem que a segunda passagem da frase começa no contratempo do terceiro tempo do segundo compasso.

As notas utilizadas para a construção da frase foram retiradas da escala Blues de Lá menor, uma pentatônica acrescida da blue note ♯4 (D♯), utilizada como nota de passagem no meio da frase.

O ideal é estudar a frase até memorizá-la e, posteriormente, tentar executá-la junto com a gravação.

Considerações finais

Este disco modificou o conceito sonoro de diversas bandas nos anos posteriores ao seu lançamento, influenciando grupos como Primus e Dream Theater, entre outros.

Discipline apresentou novos instrumentos e novas possibilidades sonoras e, além de tudo, é executado por quatro músicos de enorme experiência musical. Trata-se realmente de um clássico, resultado de uma combinação de experiência, experimentação e domínio técnico.

O álbum mantém o alto padrão de qualidade associado à produção do King Crimson na década de 1970, ao mesmo tempo em que flerta com diferentes vertentes da música, como o Rock Progressivo, a New Wave e o Pop, entre outras. O resultado é uma identidade sonora própria, que passou a acompanhar a trajetória do King Crimson nas décadas seguintes.

Esta matéria é gratuita e permanece disponível no ambiente virtual para os alunos dos meus cursos de contrabaixo, teoria, harmonia e análise.

Para conferir alguns dos trabalhos e artigos que publiquei, acessem o link:

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Para obter mais informações, entrem em contato pelo e-mail: femtavares@gmail.com.

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Bons estudos e até a próxima coluna!

Fernando Tavares utiliza cordas Giannini e cabos Datalink.

segunda-feira, 19 de outubro de 2026

Teoria e Análise: Modelos harmônicos e o estudo da improvisação no Jazz e no Fusion

 

Olá, pessoal!

Nesta semana, damos continuidade à nossa coluna de Teoria e Análise. Diferentemente das outras colunas deste blog, nas quais apresento estudos teóricos e práticos sobre os assuntos abordados, neste espaço buscamos refletir sobre os conteúdos e instigar novas pesquisas por parte dos leitores.

Ao longo da minha carreira, deparei-me diversas vezes com diferentes “padrões” de análise, como a harmonia funcional, as teorias tradicionais e outros modelos conhecidos e estudados pelos músicos.

Em 2017, fui apresentado, no LAMUS, à teoria de Robert Gjerdingen, que envolve os esquemas contrapontísticos do período galante — veja a coluna anterior, na qual apresentamos algumas referências bibliográficas sobre o assunto. A partir desse contato, comecei a refletir sobre a possibilidade de utilizar outros modelos, para além dos mais tradicionais, na análise da música popular como um todo.

Vamos começar pelo Jazz e pelo Fusion, a partir da minha experiência com o estudo desses estilos.

Entre os diversos autores que estudei, dois me chamaram especialmente a atenção, e busquei me aprofundar nas propostas apresentadas por eles. O primeiro foi Jamey Aebersold, autor do seminal Como Improvisar Jazz e Tocar —  veja a coluna sobre este livro aqui  — e, posteriormente, de uma extensa coleção de livros sobre o estilo — veja os livros para compra neste link. Nessas obras, o autor demonstra a aplicação de escalas e arpejos sobre sequências harmônicas e standards de jazz.

O segundo autor foi Mozart Mello, com quem tive a oportunidade de conviver não apenas como aluno, mas também como amigo e sócio. Ao longo desse período, tivemos extensas conversas sobre a música em toda a sua dimensão — você pode conferir os seus cursos aqui.

Em ambos os autores, chamou-me a atenção a semelhança com o modelo de ensino e estudo do período galante. Em outras palavras, encontramos a construção de protótipos sonoros — harmônicos, no caso do Jazz, e contrapontísticos, no caso do estilo galante — que serviam como base para a construção composicional e para a prática musical em ambos os universos.

Obviamente, não estou dizendo que exista uma conexão direta entre esses dois universos musicais, muito menos que os músicos de Jazz tenham se inspirado diretamente nos músicos do período galante. O que realmente quero dizer é que a criação e a utilização de esquemas constituem processos recorrentes na transmissão do conhecimento musical. O uso desses modelos faz parte, inclusive, de formas de transmissão de conhecimento “informais” entre músicos. Em outras palavras, trata-se de um código que o músico precisa dominar para transitar pelas sonoridades que deseja produzir.

Assim, sugiro que vocês não apenas observem o conteúdo apresentado por esses dois professores que citei, mas que procurem compreender também aquilo que está nas entrelinhas de seus escritos e métodos:

Pratiquem exaustivamente os protótipos musicais e busquem ampliá-los por meio da utilização de diferentes ferramentas sonoras, que poderão transformar positivamente a sua sonoridade.

John Coltrane (23 de setembro de 1926 — 17 de julho de 1967) dominou o estudo da forma Blues — como podemos observar em Mr. P.C. e Equinox — e dos standards, explorando suas sequências harmônicas, como o ii–V–I, tão recorrente no Jazz.

Após anos de prática sobre esses esquemas, o músico passou a buscar novas possibilidades e a explorar outras sonoridades, como aquelas apresentadas pelo músico e teórico Nicolas Slonimsky no livro Thesaurus of Scales and Melodic Patterns.

Esse estudo contribuiu para que Coltrane alcançasse um patamar de exploração sonora que o coloca entre os grandes nomes do Jazz. Sua sonoridade pode parecer inalcançável para muitos músicos, mas podemos compreender parte desse desenvolvimento a partir de um processo contínuo de estudo e experimentação sobre modelos de fraseado e esquemas harmônicos recorrentes no estilo.

Em suma, o que pretendo demonstrar para vocês é a necessidade de compreender os esquemas do Jazz e do Fusion e estudá-los progressivamente, desde as formas mais tradicionais até os modelos mais modernos.

Assim, aconselho ao aluno iniciante ou intermediário na prática da improvisação que estude exaustivamente arpejos, escalas e frases dentro de alguns dos esquemas básicos do repertório:

  • V7 – I ou V7 – i
  • ii – V7 – I ou iiø – V7 – i
  • Blues Maior
  • Blues Menor
  • ii – V7/III – III – VI – iiø – V7 – i – % (abertura de Autumn Leaves)
  • I – % – V7/V – % – ii – V7 – I – %

Este artigo faz parte da minha coleção, que inclui diversos estudos sobre contrabaixo, teoria e análise musical.

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Bons estudos e até a próxima coluna!

Fernando Tavares utiliza cordas Giannini e cabos Datalink.

Fernando Tavares é pesquisador, professor e contrabaixista. Contribuiu com diversas publicações para revistas especializadas em contrabaixo e hoje é membro do LAMUS (Laboratório de Musicologia da EACH-USP Leste), do CEMUPE (Centro de Musicologia de Penedo) e do LEDEP (Laboratório de Educação e Desenvolvimento Psicológico da EACH-USP Leste).

É Doutor e Mestre em Musicologia pela ECA-USP e é bolsista da CAPES.

"O presente trabalho foi realizado com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - Brasil (CAPES) - Código de Financiamento 001

"This study was financed in part by the Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - Brasil (CAPES) - Finance Code 001"

quarta-feira, 14 de outubro de 2026

Sugestão do Mês - Yes - The Yes Album


Olá, pessoal!

Estamos de volta com mais uma edição da coluna Sugestão de Álbum. Neste espaço, apresento álbuns, DVDs, livros e outras publicações que marcaram a história da música e que também contribuíram para minha formação musical, ampliando meu conhecimento sobre esse universo tão rico e fascinante.

Neste mês, a indicação é The Yes Album, terceiro álbum de estúdio da banda britânica Yes, lançado em 1971. Este trabalho marca a estreia do guitarrista Steve Howe na discografia do grupo e representa um momento importante na consolidação de sua identidade musical.

Ao longo do álbum, já é possível perceber características que seriam aprofundadas nos trabalhos seguintes, especialmente em Fragile (1971) e Close to the Edge (1972). A combinação entre estruturas musicais elaboradas, passagens instrumentais, mudanças rítmicas e interação entre os músicos contribuiu para estabelecer algumas das marcas mais reconhecíveis do rock progressivo.

Para os contrabaixistas, o álbum merece atenção especial pelas linhas de Chris Squire, cuja abordagem melódica, articulação e integração com os demais instrumentos ajudaram a ampliar o papel do contrabaixo no rock. Suas intervenções vão muito além da sustentação harmônica, participando ativamente da construção das texturas e do movimento musical.



Ficha técnica

Álbum: The Yes Album
Artista: Yes
Lançamento: 1971
Gênero: Rock progressivo
Gravadora: Atlantic Records

Faixas

  1. Yours Is No Disgrace — Bill Bruford, Chris Squire, Jon Anderson, Steve Howe e Tony Kaye — 9:40

  2. Clap — Steve Howe — 3:16

  3. Starship Trooper — 9:28

    • Life Seeker — Jon Anderson

    • Disillusion — Chris Squire

    • Würm — Steve Howe

  4. I've Seen All Good People — 6:55

    • Your Move — Jon Anderson

    • All Good People — Chris Squire

  5. A Venture — Jon Anderson — 3:20

  6. Perpetual Change — Chris Squire e Jon Anderson — 8:57

Músicos

  • Jon Anderson — voz e percussão

  • Steve Howe — violão, guitarra e voz

  • Chris Squire — contrabaixo e voz

  • Bill Bruford — bateria

  • Tony Kaye — piano, órgão e sintetizador

Créditos técnicos

  • Produção: Yes

  • Engenharia de som: Eddie Offord

  • Design: Jon Goodchild

Vídeo


Espero que gostem deste álbum dessa banda genial! Recomendo especialmente uma escuta atenta às linhas de contrabaixo de Chris Squire, procurando observar como o instrumento participa da construção melódica, rítmica e harmônica das composições.


A seção Sugestão de Álbum apresenta obras que marcaram a história da música e que podem servir de inspiração para músicos, pesquisadores, professores e apreciadores. A cada edição, uma nova indicação para ampliar o repertório de escuta e incentivar novas experiências musicais.

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Bons estudos e até a próxima publicação!

Fernando Tavares

terça-feira, 6 de outubro de 2026

Como aplicar o estudo de harmonia em suas composições

 Olá, pessoal!

Já viram a série de vídeos que fiz com o meu amigo Mauricio Fernandes?

Nela, conversamos sobre diversos temas relacionados à música e aos estudos em geral.


Neste vídeo, damos continuidade à série falando sobre harmonia, abordando alguns conceitos harmônicos que utilizamos em nossas composições e comentando como esses conceitos podem ser aplicados no processo de criação musical.

Curtam nossas redes e acompanhem o nosso trabalho. Estaremos sempre postando novidades!

Este vídeo faz parte da minha coleção, que inclui diversos estudos sobre contrabaixo, teoria e análise musical.

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Bons estudos e até a próxima!

Fernando Tavares