Olá, pessoal!
Estamos de volta para mais uma matéria, na qual falamos sobre um álbum ou um baixista. Neste mês, temos as linhas de contrabaixo do álbum Discipline, do King Crimson, analisadas para os leitores do site.
Este álbum marca o retorno do King Crimson aos estúdios após sete anos sem lançar material inédito. A relevância da banda no cenário do Rock Progressivo é marcante. O grupo lançou alguns dos grandes clássicos do gênero, como In the Court of the Crimson King, Larks' Tongues in Aspic e Red, entre 1969 e 1974. Após uma pausa nas atividades, a banda retornou com o álbum Discipline, que se tornou um clássico não apenas pela mudança na sonoridade do grupo, mas também pela criação de possibilidades sonoras que exploravam recursos até então pouco utilizados pela banda, tanto pelo emprego de instrumentos e recursos tecnológicos para a criação de novos timbres quanto pela execução das músicas com instrumentos pouco convencionais.
Outras características marcantes deste álbum são o trabalho dos guitarristas Robert Fripp e Adrian Belew, que executam linhas de guitarra em contraponto e exploram procedimentos polirrítmicos, e a atuação do baterista Bill Bruford, que apresentou inovações tecnológicas para a bateria, utilizando pads com controladores, além de sua conhecida habilidade na execução de compassos alternados.
Quanto ao que nos cabe nesta matéria, que é o trabalho do excepcional baixista Tony Levin, vale destacar que ele não apenas esteve na vanguarda de novas formas de tocar contrabaixo na música popular, como também ajudou a difundir, com este álbum, a técnica de Two-Handed Tapping e um instrumento pouco usual na época: o Chapman Stick de 12 cordas.
Análises
Exemplo 1
Na primeira faixa, “Elephant Talk”, o groove principal da música é executado no Stick utilizando a técnica de Two Hands, e Levin emprega bastante swing nessa levada. Os sons de elefante que aparecem na música são produzidos pela guitarra de Belew.
Exemplo 2
A nota Fá, que aparece no quarto compasso, funciona como uma aproximação cromática.
Exemplo 3
Em “Frame by Frame”, Levin utiliza novamente o Stick. A base da voz desta música é construída em um compasso de 7/4.
O Exemplo 3 apresenta o interlúdio da música, que começa por volta de 0:37 e retorna outras duas vezes, em 2:12 e 3:49. O trecho foi transposto para o contrabaixo de cinco cordas e é construído com diversos slides, além das semicolcheias no último tempo de cada compasso, que soam quase percutidas devido à alta velocidade da frase.
Este trecho apresenta uma característica harmônica muito presente nas músicas do King Crimson: a harmonia modal. A frase está em C#m e se repete um tom e meio acima, em Em; novamente um tom e meio acima, em Gm; e, posteriormente, meio tom acima, em G#m.
Exemplo 4
Em “Matte Kudasai”, Levin utiliza um contrabaixo de quatro cordas e constrói uma levada bastante simples.
Exemplo 5
A faixa “Indiscipline” é mais uma gravação na qual Levin utiliza o Stick.
A frase principal, apresentada no Exemplo 5, está em compasso 4/4 e não apresenta maiores dificuldades técnicas. O grande desafio aparece no refrão da música, quando a estrutura rítmica dessa primeira frase é executada com a mão direita, utilizando F e 3 do acorde de A, enquanto a mão esquerda realiza uma linha em 5/4.
Essa linha é apresentada no Exemplo 6. Temos, portanto, uma situação bastante interessante: Levin realiza uma espécie de polirritmia consigo mesmo, combinando diferentes organizações métricas entre as duas mãos.
Vejam a linha completa no Exemplo 7 e reparem que a nota forte — Lá, na 12ª casa da corda Lá — coincide com o primeiro tempo apenas quando é tocada no primeiro compasso.
Exemplo 6
Exemplo 7
Exemplo 8
Em “Thela Hun Ginjeet”, a base para a linha vocal é construída utilizando a técnica de Slap, como apresentado no Exemplo 8.
Foram utilizadas a fundamental, a quarta e a sétima para a construção da frase. Também são empregados dois ligados cromáticos, um ascendente e outro descendente, em direção a essas notas.
No segundo tempo, aparecem duas notas abafadas: uma executada com Thumb e outra com Plucked. Por fim, no quarto tempo do último compasso, há uma aproximação cromática em direção à fundamental do acorde.
Exemplo 9
“The Sheltering Sky” é, em termos técnicos para o contrabaixo, a música mais simples do álbum. A linha é construída utilizando a fundamental de cada acorde.
Fiquem atentos, entretanto, aos contratempos utilizados pelo baixista na construção da linha. O trecho foi transposto para o contrabaixo de quatro cordas, mas, para quem possui um contrabaixo de cinco cordas, vale experimentar tocar o Dó sustenido uma oitava abaixo.
Exemplo 10
A última faixa do álbum, “Discipline”, é a música mais difícil de executar no contrabaixo.
No Exemplo 10, temos a linha de contrabaixo na primeira pauta e a linha principal de guitarra, transposta para o contrabaixo, na segunda pauta. Dessa maneira, podemos compreender melhor a construção da linha.
Enquanto a base da música é construída em um compasso de 5/4, a linha de Levin utiliza a técnica de Two Hands em um compasso de 9/16. Observem que a segunda passagem da frase começa no contratempo do terceiro tempo do segundo compasso.
As notas utilizadas para a construção da frase foram retiradas da escala Blues de Lá menor, uma pentatônica acrescida da blue note ♯4 (D♯), utilizada como nota de passagem no meio da frase.
O ideal é estudar a frase até memorizá-la e, posteriormente, tentar executá-la junto com a gravação.
Considerações finais
Este disco modificou o conceito sonoro de diversas bandas nos anos posteriores ao seu lançamento, influenciando grupos como Primus e Dream Theater, entre outros.
Discipline apresentou novos instrumentos e novas possibilidades sonoras e, além de tudo, é executado por quatro músicos de enorme experiência musical. Trata-se realmente de um clássico, resultado de uma combinação de experiência, experimentação e domínio técnico.
O álbum mantém o alto padrão de qualidade associado à produção do King Crimson na década de 1970, ao mesmo tempo em que flerta com diferentes vertentes da música, como o Rock Progressivo, a New Wave e o Pop, entre outras. O resultado é uma identidade sonora própria, que passou a acompanhar a trajetória do King Crimson nas décadas seguintes.
Esta matéria é gratuita e permanece disponível no ambiente virtual para os alunos dos meus cursos de contrabaixo, teoria, harmonia e análise.
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Bons estudos e até a próxima coluna!
Fernando Tavares utiliza cordas Giannini e cabos Datalink.














